Mariposa invasora usa bússola magnética e pistas visuais para cruzar continentes
Estudo revela que a lagarta-do-cartucho integra campo geomagnético e visão para manter rota sazonal; sem luz, perde estabilidade de voo

Produtora São Paulo?/?Oxitec
Por décadas, cientistas suspeitaram que insetos migratórios noturnos recorressem ao campo magnético da Terra como guia invisível em suas travessias. Agora, um estudo publicado nesta terça-feira (3), na revista eLife, apresenta evidências experimentais robustas de que a lagarta-do-cartucho — a mariposa Spodoptera frugiperda — combina informações geomagnéticas e visuais para se orientar durante suas migrações sazonais.
O trabalho, liderado por pesquisadores da Nanjing Agricultural University, com colaboração da Lund University e da University of Exeter, demonstra que o inseto não apenas detecta o campo magnético terrestre, mas depende de pistas visuais para estabilizar e interpretar essa informação.
“Mostramos que a orientação magnética não ocorre de forma isolada”, afirmou o entomólogo Gao Hu, autor correspondente do estudo. “Sem referências visuais estruturadas, a mariposa perde estabilidade de voo e a orientação coletiva desaparece.”
Conflito sensorial gera desorientação — mas com atraso
A equipe desenvolveu um sistema experimental em ambiente fechado que permitiu manipular, de maneira precisa, o campo magnético ao redor de mariposas presas a um simulador de voo. Em condições naturais, os insetos capturados no campo orientaram-se para o norte na primavera e para o sul no outono — comportamento coerente com seu padrão migratório na Ásia.

Esquema da montagem experimental para o estudo da orientação magnética em lagartas-do-cartucho.
Mariposas são presas a um eixo vertical no centro do simulador de voo virtual, com um codificador registrando sua direção de voo. Uma lâmpada de espectro total ilumina a arena, enquanto o computador que controla o experimento está posicionado fora do campo de luz para evitar interferências. As mariposas podem girar livremente em qualquer direção durante o ensaio. Detalhes experimentais completos estão descritos em Métodos. O cilindro é ilustrado como transparente na figura para revelar a configuração interna, mas é opaco no experimento real.
Quando os cientistas inverteram artificialmente o componente horizontal do campo magnético por meio de bobinas de Helmholtz, criando um conflito entre a direção magnética e uma pista visual fixa (um triângulo preto no horizonte artificial), as mariposas inicialmente mantiveram a rota guiada pela visão. No entanto, após alguns minutos, perderam a orientação coletiva.
“A resposta ao conflito não é instantânea”, explicou Yi-Bo Ma, primeiro autor do artigo. “Os indivíduos precisam de tempo para processar a incongruência entre os sinais sensoriais.”
Análises em intervalos de 30 segundos revelaram um declínio gradual na consistência direcional, indicando que o sistema de navegação integra múltiplas entradas antes de ajustar o comportamento.
Sem luz, sem bússola funcional
O resultado mais marcante surgiu quando os pesquisadores eliminaram as pistas visuais. Em completa escuridão — ou em um ambiente iluminado, porém sem marcos visuais distinguíveis — as mariposas não conseguiram manter orientação significativa, mesmo com o campo magnético intacto.
Além da perda de direção coletiva, os cientistas observaram aumento nas variações angulares do voo, sinal de instabilidade motora. “Isso sugere que a visão não serve apenas como referência espacial, mas é essencial para estabilizar o voo e permitir que a informação magnética seja utilizada de maneira eficaz”, disse Ma.
Implicações para segurança alimentar
A Spodoptera frugiperda é considerada uma das pragas agrícolas mais destrutivas do mundo. Nativa das Américas, espalhou-se rapidamente pela África, Ásia e Oceania na última década, causando perdas bilionárias em culturas como milho.
Compreender seus mecanismos de navegação pode ter implicações práticas. “Conhecer como essa espécie mantém rotas migratórias pode ajudar a aprimorar modelos de previsão e estratégias de monitoramento”, afirmou Jason W. Chapman, coautor do estudo.
O trabalho também amplia o entendimento sobre a biologia sensorial de insetos migratórios. Até agora, apenas a mariposa australiana Agrotis infusa havia demonstrado experimentalmente a integração entre bússola magnética e pistas visuais.
Ao demonstrar mecanismo semelhante em uma espécie com migração multigeracional e ampla distribuição geográfica, os autores sugerem que a navegação multimodal pode ser mais comum entre mariposas migratórias do que se imaginava.
“Este pode ser um princípio compartilhado entre diversos insetos noturnos”, disse Hu. “Estamos apenas começando a decifrar como esses pequenos navegadores conquistam distâncias continentais na escuridão.”
Referência
Yi Bo Ma, Gui-Jun Wan, Yi Ji, Hui Chen, Bo-Ya Gao, Dai-Hong Yu, Eric J. Mandado de prisão, Yan Wu, Jason W Chapman, Gao Hu, 2025. Sinais geomagnéticos e visuais guiam a orientação migratória sazonal da lagarta-do-cartucho noturna, o inseto mais invasor do mundo eLife 14 : RP109098
https://doi.org/ 10.7554/eLife.109098.2